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O lenço e a identidade

“Lenço Farroupilha” Importado dos Estados Unidos

Hoje é dia de falar do lenço, o item na indumentária gaúcha que mais diz sobre o peão que está usando. Você pode tirar conclusões sobre preferências políticas, históricas, religiosas, e até o estado de espírito do Gaúcho... Na coluna de hoje vou mesclar fatos históricos e usos atuais!

Inicialmente o lenço era usado na cabeça, seria uma espécie de evolução da “Vincha”, assim evitando que os cabelos atrapalhassem nas batalhas ou caçada. Com a colonização espanhola tomando mais força, começaram os cortes de cabelo, e fez com que o lenço na cabeça perdesse a função, foi então que o lenço achou seu lugar em definitivo, o pescoço. Mas ele ganhou mais significado e honra na ímpia e injusta guerra, e passou a distinguir os combatentes, os Farrapos que lutaram contra o Império (1835-1845) usavam o lenço vermelho. Com o crescimento e a evolução do movimento importaram dos Estados Unidos o “Lenço Farroupilha”, segue imagem acima.

Nas revoluções de 1893 e 1923, a peleia foi entre “chimangos” e “Maragatos”. Os Chimangos usavam lenços brancos e tinham ideais republicanos, já os Maragatos ostentavam o lenço vermelho e eram federalistas. Além das referências políticas o lenço tinha função de escudo, por ser fabricado em seda, ele anulava o fio das espadas evitando degolas, também era enrolado na mão, tendo a mesma função de proteção.

O lenço deve ser usado pelo lado de dentro da gola da camisa, no pescoço, com exceção do formato a marinheira e o formato meia espalda, esse, que indica que o peão está procurando peleia, te prepara vivente lá vem bochincho! Respeitando esse detalhe, relembramos nossos antepassados, e mantemos viva a lembrança das nossas guerras em busca de justiça e liberdade, e não caímos nos modismos... E o mais importante, lenço só é usado com camisa social de manga comprida, sem exceção!

Quando o assunto chega à cor do lenço é que a discussão está formada, aqui não defenderei as cores padrão do MTG (branco e vermelho) e darei espaço ao “modismo”, afinal, na nossa história tivemos o lenço Verde, o Amarelo e o Farroupilha por exemplo... Caso defenda o ideal e tem orgulho dos farrapos, use apenas a cor vermelha, você estará expondo todo seu orgulho aos nossos antepassados e é de fato uma atitude nobre! Mas se o peão está devidamente pilchado, com camisa social, bombacha e tudo mais... Não vejo problemas em usar cores alternativas (azul, carijós, italianos entre outros), não devemos condenar outras cores até porque acredito que há preocupações maiores que a cor do lenço. Só defendo o respeito as cores: Preto, e xadrez preto e branco, que são cores para o luto e o luto aliviado e não devem ser usadas em bailes e festas.

Um fato interessante, pouco sabido, e que fará você entender o porquê de eu não defender uma só cor, vem da Missa Crioula. Quando é iniciada, amarra-se um lenço vermelho e um lenço branco na Cruz Sagrada, simbolizando a paz entre os Gaúchos, para que nunca mais seja derramado sangue de outro irmão Gaúcho. Devemos apenas colocar o lenço no pescoço e lutar para manter nossa tradição viva, sendo chimango, maragato, farrapo ou qualquer outro ideal Gaúcho!

Tchê! Chegamos ao nó, há muitas formas de atar um lenço, desde o “Chimango”, também chamado de “Simples”, passando pelo “Maragato”, “Rapadura” ou ainda “Quatro Cantos”, indo para o “Bago de Touro”, “Três Galhos”, e ainda os nós... “Amizade”, “Crucifixo”, “Dois Topes”, “Ginete”, “Namorados”, enfim, uma lista gigante de nomes e modelos! Não importa o nó que faça, mas dê um nó no lenço, não utilize passador que além de feio não tem sentido algum!

Esvoaçando ao vento, no peito de um Gaúcho, o lenço representa a valentia, a altivez, a conquista do pago, a coragem dos que lutam por esse ideal, sendo ele do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná ou qualquer outro lugar desse mundo!

Autor: André Zancanaro Wergutz